Jegue crônicas: Dia de Iemanjá

Quem nasce em Salvador sabe que 2 de fevereiro, dia de Iemanjá, é dia também de acabar com os estoques de sabonetes, perfumes de alfazema e cestinhas de palha na capital baiana. É dia de ir para o Rio Vermelho, vestido de branco ou de azul, e enfrentar a multidão por ela. Não importa a que religião você pertença, todo mundo nesta data é filho da entidade das águas, mãe zelosa, senhora do mar e faz de tudo para que ela receba seu presente. Eu nasci 26 dias depois do dia de Iemanjá, em fevereiro, quase dando adeus  ao mês. Minha mãe me deu um dos nomes da rainha do mar, Janaína, tirado do romance Mar Morto, do escritor baiano Jorge Amado, e desde então meu fascínio pelas águas e por este orixá me acompanham.

Iemanjá

Iemanjá

Quem nasce em Salvador também sabe que o sincretismo é algo tão presente, que em um altar dedicado à Santa Rita de Cássia, Santo Antônio e à Virgem Maria é completamente possível você encontrar uma imagem de um orixá no meio dos santos católicos. Se não acredita, convido o leitor a dar uma passada na casa de meus pais na capital baiana, onde este altar permanece intacto, não tão cuidado como nos tempos passados, em que minha vó e suas zelosas mãos, toda a sexta-feira, tirava o pó de seus santos, acendia uma vela de sete dias e dava a mim a incubência de trocar a água da pequena piscina de vidro, cheia de pequenas conchas (que eu sempre levava para casa quando ía à praia), onde Iemanjá descansava e a todos cuidava. Minha vó, católica apostólica romana, como dizia, era tão fascinada pelo orixá como eu era pelas histórias em que a entidade penteava seus cabelos sobre as rochas do mar, que banhava a Baía de Todos os Santos, mostrando que os limites entre as religiões, em algum momento, se dissolvem naquela terra.

Rio Vermelho à noite. Salvador, Bahia. Imagem: Erik Pzado.

Casa de Iemanjá. Rio Vermelho à noite. Salvador, Bahia. Imagem: Erik Pzado.

Nunca fui a uma festa de Iemanjá. Talvez esta seja uma das minhas grandes frustrações quando este dia chega e eu, longe de minha terra, penso em como o Rio Vermelho hoje deve estar lindo, todo vestido de azul e enfeitado de flores. Nunca, nunca fui a uma festa de Iemanjá, mesmo querendo. Mesmo tendo comprado, diversas vezes, vidrinhos de alfazema para dar a ela de presente. Acabava dando à minha vó, que muitas vezes salpicava na imagem umas gotas do perfume. Não, eu não queria enfrentar a multidão, o empurra-empurra, sem a garantia de conseguir chegar até o mar e deixar meu presente, minha oferenda e meu pedido. Deixava para ir depois, só para conversar com ela, de longe, no Largo de Santana, sentada ouvindo o som das ondas.

Rio Vermelho à noite. Salvador, Bahia. Imagem: Erik Pzado.

Rio Vermelho à noite. Salvador, Bahia. Imagem: Erik Pzado.

Quase ninguém entende meu amor pelo Rio Vermelho. Para muitos, é apenas uma praia estreita. Para mim, é a morada de Iemanjá, mesmo sabendo que ela vive em todos os mares e que seus cabelos e seus braços de mãe atingem todas as margens, sujando os dedos de areia fina. Hoje, penso nela e em como deve estar feliz com tantos filhos querendo um pouco de sua atenção. Sinto, mais uma vez, por mais um ano, não ter ido à sua festa, não ter enfeitado os seus cabelos de mar com minhas flores preferidas ou ter-lhe dado sabonetes e perfumes, para deixar seu corpo de mulher e mãe sempre com cheiro de manhã ensolarada. Sinto, mais uma vez, por mais um ano e por todos os anos que estive em Salvador e não quis enfrentar a multidão por ela. No entanto, como todas as mães, ela entenderá quando eu sentar na baulostrada, com os pés balançando sobre a areia do Rio Vermelho, e quiser trocar umas poucas palavras, falar de um ano todo que vivi, de planos e projetos, de um grande amor, que ano passado, sem saber, dividia comigo esta conversa, em uma noite de brisa tranquila, no mês de fevereiro, no mês dela.

Águas do mar, os braços de Iemanjá. Imagem: Erik Pzado.

Águas do mar, os braços de Iemanjá. Imagem: Erik Pzado.

Odo Iyá, minha mãe, Iemanjá.

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8 Comentários

  1. […] This post was mentioned on Twitter by Gui Bistolfi, jana_calaca, Jegueton, Viajando c/Pimpolhos, 1001roteirinhos and others. 1001roteirinhos said: RT @jana_calaca: Jegue crônicas: Dia de Iemanjá,hj, no @jeguiando. Peço desculpas + 1 vez à minha mãe … http://bit.ly/hHKOxU #Iemanjá […]

  2. Lorena Grisi disse:

    Passei para dar uma olhada, invejar as viagens e dizer uma coisa: MUITO LINDAS as fotos de Erik.

    Janinha, beijos!

  3. Erik PZado disse:

    Meu amor, lindo texto… me senti novamente sentado àquele murinho, trocando idéias, ouvindo o mar em conflito constante com o trânsito… Deliciosa noite vivida ao seu lado, onde pude fotografar a orla refletida em suas contas. Te amo!

  4. Sergio Souza disse:

    Saudades da festa de Iemanjá e do Rio Vermelho. Belo texto, me trouxe lembranças boas da minha amada Bahia.

    • Sérgio, o Rio Vermelho é um dos meus cantinhos na cidade. Adoro aquele lugar. Quanto a Iemanjá, ela sempre povoou meu imaginário, me despertando sempre um fascínio mudo e um respeito presente.

      Um grande e forte abraço,

      Jana.

  5. Que inspiração ler esse seu texto, adorei! Conheço tão pouco da Bahia e sempre que leio me apaixono mais um pouquinho 🙂
    Bjos


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