Em 2010, quando o movimento intitulado de Fattitude (que, na tradução, é algo como “orgulho gordo”) estava causando polêmica por ser considerado uma apologia à obesidade, fui convidada a participar de um quadro do programa MTV Debate (para assistir ao vídeo, clique no link), apresentado pelo cantor Lobão juntamente com o VJ Léo Madeira. Na época, eu assinava uma coluna em um blog que falava sobre o cotidiano dos gordinhos, das dificuldades, dos preconceitos vividos diariamente e de como é viver em uma sociedade que estabelece padrões estéticos dominantes e que se recusa a conviver com as diferenças. Além de lidar com a histeria dos padrões inalcansáveis, ainda temos que lidar com os clichês de que somos lentos, de que não temos energia, de que não produzimos e de que nossas vidas se resumem a comer. Tudo isso se reflete na auto-estima do indíviduo com sobrepeso ou obeso, que se vê travando, todos os dias, batalhas para ter que provar que é capaz de levar uma vida como uma pessoa qualquer, estando apto a trabalhar, a se relacionar, a se vestir (sem que pareça ter o dobro de sua idade), ou, simplesmente, ter o direito de viver e não de sobreviver.

Diogo Brasil, Léo Madeira e Janaína Calaça na gravação do "Conversa sobre Obesidade" para o Programa MTV Debate

Durante a gravação do programa, eu e Diogo Brasil, também blogueiro, passamos pelas experiências cotidianas que um indivíduo com sobrepeso/ obeso vivenciam: pegar ônibus, pegar metrô etc. Na época, haviam sido implantados, aqui em São Paulo, bancos para obesos nas plataformas do metrô e bancos preferenciais tanto no veículo citado como nos ônibus, que eram voltados para as pessoas que tivessem dificuldade de locomoção (já que são diversos os graus de obesidade). Depois de vivenciar essas atividades, sentamos para um bate-papo e fomos entrevistados sobre os pontos de maior impacto em nosso dia a dia. Certamente, os pontos que mais me revoltam até hoje (vide a minha cara de brava durante a entrevista :P) são: a impressão de que temos que pedir licença para viver e a questão de que, para termos uma vida “normal”, temos que emagrecer – aparentemente, só depois de perder uns bons quilos, as pessoas começam a acreditar que podem conquistar este direito. Até lá, somos apenas sobreviventes! Oukay…!

Depois de um tempo, de tanto ouvir e ler relatos de pessoas que tinham medo de sair à rua por causa de piadinhas, de se relacionar, de comer em público, de ir à praia, de viajar, por não se sentirem capazes (já que o tempo todo somos tratados como incapazes), resolvi que me apegaria mais à vida e às coisas que gostaria de fazer antes de partir dessa para melhor. O futuro é projeção. Ele não está lá. Só temos o presente e, por ser tudo o que temos, o melhor é não deixar para amanhã!

Erik fazendo rapel. Imagem: Janaína Calaça

Erik fazendo rapel. Imagem: Janaína Calaça

Para minha sorte, encontrei na vida alguém que pensa como eu: que a vida é curta e não podemos nos dar o luxo de esperar que a mentalidade da sociedade mude para que possamos começar a viver. Erik e eu, ambos gordinhos, nos apaixonamos (sim, gordos amam!) e resolvemos transformar as nossas experiências em um empurrão para muitas pessoas, que se aprisionaram em casa por medo das críticas. As críticas sempre existirão de todos os lados e em diversas situações, é fato. O que muda é nossa postura diante delas.

Durante esses anos, em que tocamos o Jeguiando juntos, vivenciamos aventuras e desventuras, que se repetem, certamente e diariamente, com quem, como nós, também é gordinho. Em nossas viagens, tudo começa com o drama dos assentos dos aviões, do olhar de pânico que algumas pessoas nos lançam (com medo de que sentemos ao seu lado e entalemos) e da forma como sempe nos sentimos uma sardinha conservada na água (porque se fosse no óleo, entraríamos mais facilmente). No entanto, o avião é só a primeira parte da aventura! Sim e ainda há companhias em alguns países que cobram o valor de dois assentos para um obeso. Claro! Afinal, não é a sociedade que tem que criar alternativas para nós. Pagamos nossos impostos como todo mundo, mas alternativas pra quê? Podemos certamente passar por uma cirurgia de estômago ou nos entupirmos de inibidores de apetite, que está tudo certo! Oukay²…!

Fazendo flutuação no Rio da Prata, Bonito, MS. Imagem: Erik Pzado

Fazendo flutuação no Rio da Prata, Bonito, MS. Imagem: Erik Pzado

E aí, depois do perrengue do avião, lá vamos nós escolher passeios e atividades! Não podemos ir à praia, porque nossa imagem boteriana agride aos olhos mais sensíveis… Desculpa aí, mas adoro praia e não vou mesmo deixar de ir! Jogar areia nos olhos pode ser uma boa alternativa, usar um tapa-olho também! Depois, são as atividades de ecoturismo e turismo de aventura, que passaram, aos poucos, a fazer parte do nosso cotidiano, quando acreditei que eu conseguiria fazer aquilo que me dispusesse a fazer. Tudo isso tambem passou a ser motivo de choque e é capaz de um dia a gente entrar no programa Tabu Brasil, tamanha a comoção que causa! Se entramos em um bote para fazer rafting, minha gente, olhos assustados nos fitam… A tradução? “Vamos virar, vamos virar!!!” Em Bonito, por exemplo, uma senhora, sem a mínima noção, deu um precioso chilique, porque, em uma das descidas nas corredeiras, Erik esbarrou nela. Se vamos fazer uma trilha, o povo estranha. Se vamos descer de tirolesa ou de rapel, rola aquela tensão… “E aí, o cabo de aço, que suporta TONELADAS, vai aguentar o casal de porpetas?” É, gente… Não é fácil ser um casal de gordinhos, que resolveu deixar o clichê de passar o dia em frente à televisão de lado!

De olhares assustados a conversas à boca pequena, de piadinhas à supresa de ouvir alguém, que nos julgara lerdos ou incapazes, dizer “que surpreendemos”, vamos vivendo a vida e vivendo no sentido profundo da palavra. Quando um e-mail bate em nossa caixa, com depoimentos de que inspiramos alguém a querer viajar, a querer sair de casa ou a ter coragem de fazer algo que tinha muita vontade de fazer, mas tinha medo por ser gordo, aí sentimos que vivemos duas vezes mais, porque sentimos a nossa superação e a do outro na pele. Limites? Claro que eles existem. Nem tudo nós fazemos, afinal temos nossas limitações, seja de ordem de preparo físico ou até provocadas pelo medo do desconhecido, que a todos aflige. No mais, entre aventuras e desventuras, vivemos o presente, porque o futuro sempre será projeção. O hoje é, definitivamente, o que há para nós de mais palpável!

Eu e Erik (ao fundo) fazendo rafting em Bonito, MS. Imagem: Ronaldo Saltiva

Eu e Erik (ao fundo) fazendo rafting em Bonito, MS. Imagem: Ronaldo Saltiva

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19 Comentários

  1. Ler um relato como esse é uma delícia. Acho que esse texto não corresponde nem a um quinto das aventuras de vocês por aí, mas tenho certeza de que ele representa muito bem a forma como vocês levam a vida!

    E garanto que se ela for tão divertida e emocionante quanto o que está escrito, você aproveitam mais do que muito magrinho por aí! Parabéns ao casal por não perder nunca a vontade de viver! O presente é só o que a gente tem, é preciso usá-lo com sabedoria 😉

    Beijos!!

  2. É verdade, Ju! Claro que quando você é adolescente, a insegurança, o medo é muito grande e você acaba cedendo a todas essas pressões. Com o tempo, você descobre que deixar de fazer o que gosta ou que quer com receio de ser criticado só te faz perder momentos preciosos da vida e o que se perde não volta mais. 😉

    Beijão, minha nêga!!!

    Jana.

  3. Ludmy disse:

    Amei. Transparente, sincero, e “vivo”. Como vocês.
    Continuem vivendo assim, sem se preocupar tanto com os olhares alheios. Com certeza você são muito mais feliz dessa maneira. Quero aprender com vcs!!!

    • Lud, fazia tempo que eu queria muito escrever este texto. Acho que sempre quis escrevê-lo a cada situação tosca que passávamos por sermos gordos e as pessoas n compreenderem q temos tanto direito à vida como qualquer um. Mas a hora certa sempre vem. É aquela que você ganha o distanciamento suficiente para dizer aquilo que precisa dizer, sem a interferência da frustração que dá diante da mentalidade de muitos. 🙂

      Beijão, menina!

      Jana.

  4. Ludmy disse:

    Felizes dessa maneira*

  5. Jana querida, ADORAMOS seu relato 🙂
    Ter a coragem de viver uma vida de forma mais intensa, dando valor pras coisas que realmente tem valor, já é quebrar um tabu (sabemos).
    Que bom que vcs estão nessa vibe e não estão nem ai pros que arregalam os olhos, que na verdade, não é de espanto mas sim de inveja, por não terem eles a mesma coragem de VIVER 😉
    bjos de nós3

    • Queridos!

      Muito, muito obrigada mesmo pelas palavras. Acredito que todos nós temos o compromisso de viver a vida. Se temos saúde e oportunidade de fazermos aquilo que acreditamos ser o correto de nossas vidas, desperdiçar tempo é que é inaceitável. Enquanto a sociedade bate na tecla da homogeneização, vivemos a pluralidade da diferença e assim nos encontramos. 🙂

      Um grande e forte abraço,

      Jana. 🙂

  6. Muito, muito, muito bom o texto! Concordo com você! Se joga no mundo e na vida e vamos aproveitar e fazer o que gostamos!!!

  7. Eliane disse:

    Como sempre, amo suas crônicas e com essa não poderia ser diferente. Disse tudo, o que limita a gente não é ser gordo, magro, alto, baixo, branco, preto, o limite está na nossa cabeça, no que deixamos que nos façam acreditar ou nas bobagens que criamos como verdades imutáveis! É um soco no estômago(ou seria um tapa com luva de pelica pra ficar mais chic?) nas nossas acomodações! (deixando claro que me icluo nessa, rs)

    Bjs na família!
    Eliane

    • Hahahahahaaha Minha nêga, por muito tempo me escondi, deixei de fazer coisas que queria com medo dos dedos apontados, até que resolvi fazer algo por mim. Estamos sujeitos a críticas por diversas razões. Se as deixamos nos paralizar, para aquele que nos criticou nada muda. Nós é quem abrimos mão de fazer a diferença para nós mesmos. Por isso, chutar o balde é necessário, principalmente quando o assunto é viver ou desperdiçar o nosso tempo!

      Um beijão e um abraço apertado de baiana,

      Jana. 😀

  8. Silvia!!! Só de curtir no coração já tá valendo muito! 😉 Obrigada por sempre passar por aqui, muié! :******************

    Beijão,

    Jana. ;D

  9. Erik P.Zado disse:

    A dica é simples: O mundo que é ENORME e redondo não pára, por que devo eu com 150Kg parar?! 😛

  10. Adorei o relato! Muito bacana! Tomara que inspire muitas pessoas que se privam de fazer as coisas boas da vida por coisas tão pequenas! =)
    Parabéns!
    Bjos.

    • Oi, Lilian! 😀

      Eu tb espero que este relato n só inspire as pessoas como também seja um suporte no momento em que nos sentirmos fracos e desanimados para lidar com a ignorância de muitos, que ainda acham que peso é um fator determinante para você ter direito ou n a viver a vida da forma q acha correta! 😀

      Um grande abraço,

      Jana.

  11. May disse:

    As pessoas lidam muito com estereótipos, e um dos principais é de que gordinhos não têm preparo físico pra nada e não conseguem fazer atividades físicas, e niso já incluo os passeios de ecoturismo. Impressionante isso, em pleno século XXI e as pessoas ainda com essa ignorância que chegam ao ridículo. Só porque a sociedade impõe certas regras, não quer dizer que devemos segui-las à risca, pessoas, gordinhos também são felizes, e o pior (ou melhor): além de tudo, comem sem culpa alguma. E como comer é bom, meu Deus! HAHAHA! Quando entrei na academia porque queria emagrecer, foi por absoluta decisão minha, de que EU queria mudar, e decidi entrar junto com uma amiga. Ela é bem mais velha do que eu, já havia feito musculação antes. Acredita que só porque ela é gordinha, as pessoas achavam (e algumas ainda acham) que ela não sabia fazer os exercícios corretamente? Que não conhecia sequer um aparelho? Onde quero chegar nisso é: só porque ela era gordinha não tinha noção de exercícios físicos? Não sabia se cuidar? Pelo amor de Deus, ela sabe mais que muito professor de Educação Física por aí, e ela quer emagrecer? Sim. Porém, ela é muito feliz com o corpo dela, e não está nem aí pra o que os outros pensam.

    Beijinhos,
    May ;*

  12. Elaine Castro disse:

    Cês são demais! Adorei o post.
    Ah, eu também recebo olhadas feias no avião. Minhas pernas compridas demais são um pesadelo para o passageiro que senta na poltrona da frente. Ah, essa classe econômica e a falta de espaço entre as fileiras. Meu joelho acaba virando uma alavanca futucadora de costas alheias, me policio o tempo inteiro.


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