Da cabine do barco do Cinema no Rio São Francisco, vejo o Velho Chico e o céu emoldurados. Atravesso a portinha e a imagem se amplia. Chegamos em Cachoeira do Manteiga, em Minas Gerais. Subo o barranco, afundo meus pés na terra fina e avermelhada, inspiro o ar fresco e limpo, tão distinto do que eu conheço, saio da sombra e dou as primeiras passadas para visitar a cidade, debaixo de um sol que castiga a pele e os olhos. De todas as cidades que percorri até agora, Cachoeira do Manteiga é a que mais me fez lembrar do sertão que conheci quando menina: chão poeirento e seco, sol a pino, pessoas escondidas nas sombras raras e a beleza de algumas flores, a despontar no meio de tanta secura. Animais pelas ruas, trabalho escasso, luta pela sobrevivência… do corpo e das tradições.

Acordei com o céu azul e o barulho dos motores dos barcos, a navegar o Velho Chico. Imagem: Janaína Calaça

Acordei com o céu azul e o barulho dos motores dos barcos, a navegar o Velho Chico. Imagem: Janaína Calaça

Jeguinho esperando o pessoal do Cinema no Rio São Francisco desembarcar. Imagem: Janaína Calaça

Jeguinho esperando o pessoal do Cinema no Rio São Francisco desembarcar. Imagem: Janaína Calaça

Caminho por Cachoeira do Manteiga ao lado de Góia – minha inseparável companheira nesta viagem – e vejo meninos pendurados no barranco a esperar a novidade que chega com a gente: “Vai ter cinema hoje. Vai ter pipoca!”. Um pescador, que tira seu sustento do Velho Chico, senta para conversar conosco, enquanto dividimos uma garrafa de água para espantar o calor. “A balsa tá parada. Vai faltar comida no armazém. A gente depende muito da balsa. A estrada é muito ruim. As coisas demoram a chegar”. Eu penso em todas as vezes que vou ao supermercado e tenho tudo à mão, tão facilmente. Não dependo de uma balsa que sempre quebra e começo a ver o quanto sabemos muito pouco das outras formas de viver e de como todos dão um jeito de se adaptar à realidade que se apresenta.

Aguardando para navegar. Imagem: Janaína Calaça

Aguardando para navegar. Imagem: Janaína Calaça

Chão, barro e céu azul. Imagem: Janaína Calaça

Chão, barro e céu azul. Imagem: Janaína Calaça

“Quando coisas assim acontecem na cidade (o pescador fala do Cinema no Rio São), a gente fica feliz. É um dia diferente, sabe? Um dia que a gente esquece os problemas. Quando a fábrica fecha para recesso, a gente fica sem emprego. Quando coisas assim chegam na cidade, a gente até esquece que o dinheiro tá curto e que tá difícil, né?”. Depois de um tempo, ele fala que vai sair. É hora de preparar a canoa para pescar e tentar vender os peixes na cidade, para outras pessoas que, como ele, também estão tentando se virar para garantir o sustento. Eu e Góia então tomamos nosso rumo.

Casinha. Imagem: Janaína Calaça

Casinha. Imagem: Janaína Calaça

Chão de terra e pegadas. Imagem: Janaína Calaça

Chão de terra e pegadas. Imagem: Janaína Calaça

Góia lembra de uma cozinheira de mão cheia de Cachoeira do Manteiga. Saímos à procura de sua casa e encontramos a senhorinha à beira do fogão à lenha. Ela nos estende um pão de queijo para me lembrar que ainda estou em Minas. Proseamos um pouco e a deixamos continuar com seus afazeres – terminar de cozinhar o que será servido em seu pequeno restaurante caseiro. Todos vão dando o seu jeito de sobreviver, improvisando, usando a criatividade e fazendo da fé seu maior suporte.

Na labuta diária, no calor do fogão à lenha. Imagem: Janaína Calaça

Na labuta diária, no calor do fogão à lenha. Imagem: Janaína Calaça

Chão e fé. Imagem: Janaína Calaça

Chão e fé. Imagem: Janaína Calaça

A fé, inclusive, está envolvida em uma das manifestações culturais que ainda resistem ao tempo na cidade: a folia – tradição religiosa de pagação de promessa que envolve canções entoadas e instrumentos como a viola e a rabeca. Entre as secas e cheias do Velho Chico, os habitantes da cidade fazem pedidos aos seus santos de fé: para protegerem suas casas, a colheita ou para que o peixe nunca falte no rio e no prato dos habitantes da cidadezinha, que nasceu, inclusive, depois da cheia de 1939, devastando o antigo povoado de Paracatu de Seis Dedos. O lugarejo coberto pelo São Francisco deixou de existir, mas os antigos habitantes que restaram fundaram dois novos povoados: o de Ponto Chique e o de Cachoeira do Manteiga.

Sol a pino, cidade deserta. Imagem: Janaína Calaça

Sol a pino, cidade deserta. Imagem: Janaína Calaça

Velhas cercas de estacas, casas e o chão poeirento. Imagem: Janaína Calaça

Velhas cercas de estacas, casas e o chão poeirento. Imagem: Janaína Calaça

Quando a vida traz desesperança, quando o rio enfrenta a seca, quando a comida rareia no prato, as velas para os santos são acesas. Quando a chuva vem, quando a comida é farta, quando o trabalho aparece, é hora de pagar as promessas aos santos e a folia entoa seu canto de agradecimento. O som da viola então ecoa, a rabeca traz suas notas dramáticas e, às vezes, doídas, e todos seguem em procissão para acertar suas contas. A folia resiste ao tempo, mas seus representantes, já idosos, temem por seu fim. Tradição e fé são os alicerces da pequena Cachoeira do Manteiga, que segue seu ritmo desacelerado, sua rotina, seus improvisos para a labuta diária pela vida, até algo diferente chegar e balançar a cidade, trazendo um pouco mais de esperança, um tanto de cor, um tanto de movimento, mesmo que em um dia apenas.

A beleza que desponta em lugares improváveis. Imagem: Janaína Calaça

A beleza que desponta em lugares improváveis. Imagem: Janaína Calaça

Flores. Imagem: Janaína Calaça

Flores. Imagem: Janaína Calaça

Quer conhecer um pouco mais sobre Cachoeira do Manteiga? Então assista ao documentário produzido pelo Cinema no Rio São Francisco sobre a cidade. 🙂

Acompanhe nossa série de posts sobre a expedição Cinema no Rio São Francisco, acessando http://jeguiando.com/cinema-no-rio-sao-francisco-expedicao/ e para visitar o site do projeto acesse Cinema no Rio São Francisco.

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Cinema no Rio São Francisco em Cachoeira do Manteiga, MG. Imagem: Janaína Calaça

Cinema no Rio São Francisco em Cachoeira do Manteiga, MG. Imagem: Janaína Calaça

Cinema no Rio São Francisco em Cachoeira do Manteiga, MG. Imagem: Janaína Calaça

Cinema no Rio São Francisco em Cachoeira do Manteiga, MG. Imagem: Janaína Calaça

Jegueton na telona do Rio São Francisco em Cachoeira do Manteiga, MG. Imagem: Janaína Calaça

Jegueton na telona do Rio São Francisco em Cachoeira do Manteiga, MG. Imagem: Janaína Calaça

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2 Comentários

  1. […] Cachoeira do Manteiga, MG – Sertão de fé, tradições, da viola e da rabeca Postado por Janaína Calaça em mai – 31 – 2012 0 Comentário // // […]

  2. Oi, Jana. Tudo bem?
    Seu post foi selecionado para a #Viajosfera, do Viaje na Viagem.
    Dá uma olhada em http://www.viajenaviagem.com

    Beijos,
    Natalie – Bóia Paulista


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