Dando continuidade à série de posts Jeguiando pertinho, que levará o leitor a conhecer um pouco das cidades próximas às capitais brasileiras, hoje vamos jeguiar pertinho de São Paulo, ainda no Guarujá, cidade localizada no litoral paulista, a 82 km da capital. No último post sobre o Guarujá, fizemos um breve panorama sobre o Acqua Mundo, considerado o maior aquário da América do Sul e uma das atrações turísticas mais visitadas da cidade. Hoje, no entanto, mudaremos o foco do nosso olhar, da orla, das praias, da brisa, dos coqueiros, do sorvete no fim de tarde, para conhecer um cantinho especial, que abriga um dos projetos (mantido de forma independente na cidade) mais emocionantes por sua trajetória e tão necessários para a preservação da nossa cultura, da nossa história, da nossa memória: A Casa de Cultura do Baiano das Astúrias.

Casa de Cultura do Baiano das Astúrias. Imagem: Erik Pzado.

Casa de Cultura do Baiano das Astúrias. Imagem: Erik Pzado.

Antes de falarmos diretamente da Casa de Cultura, precisamos falar do idealizador deste espaço, o simpático Baiano das Astúrias, ou, como assim está escrito no seu documento de identidade, Osvaldo Santos. Seu Osvaldo nos recebeu com cerveja gelada, salgadinhos e muitas histórias para contar. Histórias do tempo em que ele saiu de sua terra, Jacobina (interior da Bahia, onde nasceu, no ano de 1936), para tentar a vida em São Paulo, como tantos nordestinos que já fizeram este caminho na vida. As raízes nordestinas, inclusive, são motivo de orgulho para seu Osvaldo, seja através do seu apelido carinhoso de baiano ou de suas observações. “O baiano é um predestinado. Ele tem uma obrigação para com sua terra”.

Seu Osvaldo dos Santos, o Baiano das Astúrias. Imagem: Erik Pzado.

Seu Osvaldo Santos, o Baiano das Astúrias. Imagem: Erik Pzado.

Seja por obrigação para com sua terra, ou por amor, o projeto cultural do baiano começou assim, através da necessidade de preservar a memória nordestina em outras terras. Seu Osvaldo então começou a colecionar objetos, recortes de jornais, curiosidades, revistas, livros, trabalhos científicos, vídeos, que traziam notícias e contavam a história do Nordeste. No entanto, o Baiano das Astúrias resolveu ampliar os horizontes e colecionar, além de materiais sobre sua terra, materiais sobre o restante do Brasil e do mundo inteiro. Tivemos, inclusive, a oportunidade de assistir alguns dos vídeos que fazem parte do seu acervo. Como ele soube que nosso mascote era um jegue, logo nos colocou para assistir a um vídeo sobre a Corrida de Jegue em Jacobina.

Baiano das Astúrias e Jegueton. Imagem: Erik Pzado.

Baiano das Astúrias e Jegueton. Imagem: Erik Pzado.

Depois de se mudar para São Paulo, seu Osvaldo teve, no ano de 1979, a ideia de abrir um restaurante na Praia das Astúrias. Este restaurante unia duas paixões do Baiano: a paixão por dividir e propagar a cultura com a arte de combinar ingredientes e transformar em pratos. Em tempos em que ainda não existia o Google, seu Osvaldo mostrou ter um olhar muito à frente do seu tempo. Em seu restaurante, ele dava aos clientes a oportunidade de conhecer a história, fotos, curiosidades sobre o local, cujo prato pedido é típico. No cardápio do restaurante, havia pratos de várias regiões do Brasil, logo, se eu escolhesse por exemplo um prato da Bahia, enquanto este fosse preparado, teria a oportunidade de manusear o material sobre aquele determinado estado, sobre suas cidades, etc. Em tempos em que o buscador não existia e que era preciso recorrer às bibliotecas para obtermos todo tipo de informações, o baiano já nos trazia às mãos informações sobre o mundo, enquanto o cliente sentia o cheiro da comida sendo preparada na cozinha.

Acervo da Casa de Cultura do Baiano das Astúrias. Imagem: Erik Pzado.

Acervo da Casa de Cultura do Baiano das Astúrias. Imagem: Erik Pzado.

A Casa de Cultura, inicialmente, foi o nome dado a este restaurante de dinâmica tão peculiar. Com o tempo, infelizmente, o espaço teve que ser fechado, mas todo o acervo do Baiano foi preservado e hoje se encontra em sua residência, onde montou a nova sede da Casa de Cultura do Baiano das Astúrias, não mais na configuração anterior, mas ainda de portas abertas aos visitantes.

Peça do acervo da Casa de Cultura do Baiano das Astúrias. Imagem: Erik Pzado.

Peça do acervo da Casa de Cultura do Baiano das Astúrias. Imagem: Erik Pzado.

Sempre envolvido em projetos culturais, o Baiano começou a produzir, em conjunto com o diretor Tony Valentte, uma série de curtas-metragem. Buscando sempre parcerias para produzir os filmes, seu Osvaldo centrou sua atenção na necessidade de tocar em questões que envolvessem a inclusão social. Dentre os filmes produzidos pela Casa de Cultura do Baiano das Astúrias, todos disponíveis no Youtube, encontramos histórias como Água Seca (um dos meus preferidos), que fala sobre a disputa pela água potável em um futuro quase que apocalíptico; Iracema, que conta a trajetória de uma senhora, que tira seu sustento da reciclagem; Acorrentado, que traduz o desespero de uma mãe, que acorrenta seu filho à cama, para que ele não seja morto pelo seu envolvimento com drogas; entre outros disponíveis na rede.

A maior parte dos trabalhos produzidos pela Casa de Cultura envolve pessoas da própria comunidade, onde seu Osvaldo hoje reside. Os habitantes locais acabam se tornando personagens dos filmes, o que ajuda  inclusive a melhorar a auto-estima de muitos deles, como no caso da Dona Iracema, que nunca pensou ser, em suas palavras, “artista de cinema”.

Peça do acervo da Casa de Cultura do Baiano das Astúrias. Imagem: Erik Pzado.

Peça do acervo da Casa de Cultura do Baiano das Astúrias. Imagem: Erik Pzado.

A maioria dos curtas também foi gravada na própria residência do baiano, onde funciona a Casa de Cultura. Ele, inclusive, já participou de algumas produções, como a Marca do Destino, e ganhou um prêmio como ator revelação por sua atuação no 3º Festival de Cinema Experimental Curta a Vida.

Caricatura do Baiano das Astúrias. Imagem: Erik Pzado.

Caricatura do Baiano das Astúrias. Imagem: Erik Pzado.

A Casa de Cultura do Baiano das Astúrias é um pedaço do Guarujá, onde não só a história de um brasileiro sonhador foi escrita ao longo dos anos. Além das suas memórias, da vivência ao lado do seu amor, Dona Naomi (in memorian), da criação de suas filhas, Erica e Flávia Morizono, a Casa se tornou uma referência de preservação de nossa memória cultural. Seu Osvaldo, o Baiano, saiu de sua terra para buscar “sucesso, trabalho e estudo” e foi juntando, como as pedras preciosas de Jacobina, a preciosidade da memória de tantas cidades brasileiras, como também de tantos países espalhados pelo mundo. De vendedor à cineasta, seu Osvaldo transformou não só a sua vida, como a de muitos que puseram os pés em sua Casa de Cultura e a vida daqueles que, mesmo na correria cotidiana, doaram alguns minutos para ouvir as mensagens através de seus filmes. Quando perguntei qual era o objetivo de seus projetos, seu Osvaldo prontamente me respondeu: “Conscientização”.

Baiano das Astúrias. Imagem: Erik Pzado.

Baiano das Astúrias. Imagem: Erik Pzado.

Para quem se interessou pela trajetória e pelo acervo cultural da Casa de Cultura do Baiano das Astúrias e está em visita ao Guarujá, é só dar uma passadinha na Rua Francisco Rebolo, 550, na Enseada. Quem sabe, seu Osvaldo não estará por lá, com sua cervejinha servida em copo pequeno para não esquentar, sempre disposto a contar histórias e a dividir de forma muito mais calorosa o seu conhecimento sobre as coisas do mundo. Fiquem, então, com o trailer do filme que conta a história do Baiano das Astúrias, o brasileiro sonhador.

Quem também estiver interessado em fazer os projetos do Baiano continuarem a acontecer, é fácil encontrá-lo. Visite o perfil de seu Osvaldo Santos no Facebook!

  • Imagens: Erik Pzado.
  • Matéria: Janaína Calaça.
  • Mascote: Jegueton.

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