20ª Bienal do Livro de São Paulo – Outras impressões


Antes de escrever sobre algum lugar, costumamos voltar ao mesmo mais de uma vez para sustentarmos nossas impressões. A proposta do Jeguiando sempre foi a de indicar lugares que valem a pena ser visitados, então resolvemos retornar à Bienal do Livro uma semana depois.

Continuo afirmando que o evento é importantíssimo para o incentivo à leitura e conseqüentemente para a formação de cidadãos com senso crítico e não homens e mulheres facilmente manipuláveis, no entanto, ontem, presenciei uma das cenas mais ridículas e lastimáveis, que já antecipa o quanto a estupidez humana anda em alta.

Sou leitora e admiro há anos o trabalho da escritora Lygia Fagundes Telles e quando vi seu nome entre a lista de autores convidados do evento, não poderia perder a oportunidade de ouvi-la falar sobre aquilo que rege sua vida: a literatura. Fomos então, Fábio, eu e a Fernanda, uma amiga, assistir à palestra de Lygia Fagundes Telles e de Maria Adelaide Amaral. Logo na entrada do Salão de Idéias da Volkswagen, quando já estava na porta, fui surpreendida com o fato de que precisaria de senha para entrar e que deveria ser adquirida com duas horas de antecedência. O detalhe é que enquanto estávamos na fila, nenhum funcionário circulou pela área para avisar sobre a necessidade da senha e não havia nada no site que apontasse para isso. Foi formada uma fila então, ao lado do salão, para pessoas que não tinham a senha em mãos. Quando consegui entrar, vi que não faltavam lugares vazios (eram muitos), mas a necessidade de mostrar poder é incrível, mas esta não foi a cena ridícula a qual me referi no início do texto.

O bate papo entre Lygia, Maria Adelaide e o público não poderia ter sido melhor. Todas as minhas impressões sobre o carisma e a inteligência de Lygia se confirmaram e obviamente quando o bate papo terminou, várias pessoas, como eu, fomos cumprimentar a autora. Como mesmo disse, os livros dela fazem parte do meu imaginário desde menina e depois fizeram parte dos meus estudos como profissional da área de Letras. Quando consegui me aproximar de Lygia para cumprimentá-la e pedir que assinasse uma edição antiga de um dos meus livros preferidos da autora, Ciranda de Pedra, fui grosseiramente atravessada por uma das mulheres que trabalhavam na parte de apoio. Ouvi termos como “inconvenientes” a “ruminantes” serem proferidos enquanto várias pessoas e eu tentávamos trocar umas poucas palavras com a autora. Fomos conduzidos delicademente (hahahaha) para fora do tablado e eles ainda inventaram uma história de que a autora daria autógrafos no stand da Rocco, desculpa esta que foi dada para enganar de forma desrespeitosa os leitores de Lygia. Mas a história não pára por aí.

Muitas pessoas acompanharam Lygia em sua saída, pensando que realmente ela iria para a suposta sessão de autógrafos no stand da Rocco, mas conseguimos ouvir a conversa de que na verdade ela iria embora. Fábio então, que já tinha como eu tentado pedir seu autógrafo dentro ainda do Salão de Idéias, novamente pediu a Lygia para assinar meu livro. A autora foi muito simpática e assinou minha edição de Ciranda de Pedra, mas Fábio ouviu uma boa maré de grosserias por parte de quem a acompanhava, até coisas do tipo “não faça isso, porque se você assinar para um, terá que assinar para outros”, reduzindo o leitor a um nada, sem importância. Neste ponto, é que chega Geraldo Alckmin, candidato à prefeitura de São Paulo e estranhamente todas as portas parecem se abrir. O candidato prontamente foi conduzido à presença de Lygia, pode trocar palavras, tirou foto ao lado da autora, mas não podemos desprezar o fato de que o mesmo está em campanha e tudo não deixa de ser marketing pessoal. É exatamente neste ponto que nasce meu asco e revolta diante disso. O grupo que acompanhava Lygia prontamente abriu todas as portas para um candidato à prefeitura de São Paulo, mas destratou, foi grosseiro, com a maioria daqueles que tentaram se aproximar da autora e falar de sua admiração pelo trabalho da mesma. Quem me garante que Alckmin leu um livro sequer dela? Infelizmente, vivemos em um mundinho regido pela lei silenciosa de que as pessoas valem o que têm e a posição que ocupam. Naquele contexto, imagino que o leitor deveria ser respeitado, porque é o leitor que dá vida à literatura. O leitor é quem movimenta os livros da prateleira, que faz as histórias circularem, que significa os textos. No entanto, neste contexto, o político em campanha, que faz pose para colocar depois no seu clip, tem importância maior do que as pessoas que trouxeram os livros da autora para a vida e que o fizeram por ter algum significado.

É lamentável perceber até que ponto chega a estupidez humana e como as pessoas se deslumbram com coisas que até então não fazem muito sentido. Mas o que esperar de um mundo em que o termo celebridade foi tão deturpado, até chegar ao ponto de pessoas que não têm absolutamente nada a acrescentar, são laureadas e celebradas por nenhum feito que justificasse tal movimento. Como leitora, como profissional da área, me senti totalmente desrespeitada, não pela Lygia, obviamente, que teve minha admiração dobrada pela forma delicada como recebeu seus leitores, mas pelo grupo que a acompanhava e pelo grupo de apoio do Salão de Idéias da Volkswagen, que desconhece, acredito, o valor que o leitor tem na leitura. Mas o que podemos fazer? Talvez nos candidatarmos nas próximas eleições para termos o direito de dar um abraço no autor que admiramos e cuja literatura nos acompanhou por longos anos na vida. Talvez assim não sejamos chamados de inconvenientes e tratados como delinqüentes.

(Janaína Calaça)

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2 Comentários

  1. Irene Cabral disse:

    Também adoro Lygia Fagundes Telles e muito especialmente o seu romance Ciranda de Pedra (o livro da minha vida). Tenho a certeza que ela tem o maior respeito pelos seus leitores. Infelizmente o mundo está cheio de pessoas insensíveis como essa gentalha da organização, mas não há que desanimar.

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