Jeguiando

Amarrando jegues com estilo!

Archive for the ‘Viagens inusitadas’ Category

Floresta do Navio – Pernambuco

Posted by Jana On outubro - 17 - 2009

Hoje, caros jeguiantes, darei início a série de posts chamada “Cidades que você nunca ouviu falar, ao menos que você tenha nascido nela”. Brincadeiras à parte, Floresta do Navio, para quem não conhece, é uma cidade do interior de Pernambuco. O Jeguiando, quando foi idealizado, tinha como foco o relato de viagens, seja qual for a viagem! Obviamente, Floresta do Navio não consta em roteiros turísticos, até porque não se trata de uma cidade com este foco, mas se passamos por lá, sentados em nosso jegue alado (errrrr… licença poética, ok?), vale a pena abrir este espaço e falar um pouquinho da cidadezinha.

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Pé de tamarindo. Imagem: Jeguiando.

Estive em Floresta do Navio três vezes em minha vida. Duas vezes quando era menina ainda e retornei à cidade mais de 20 anos depois. Minha relação com a cidade é simples: meu pai nasceu lá e este ano fizemos uma viagem para que ele pudesse rever a família. A viagem, obviamente, mexeu com todos. Pegamos estrada, meu pai, minha mãe, meu irmão, Fábio e eu, naquele estilo bem viagem farofa e seguimos. Levando-se em consideração que em minha última ida à Floresta, viajamos em um Tanger (que é tipo um Bugre), com mudas de pé de mamão no pé (o carro não tinha porta-malas), travesseiros na cara, isopor com água e malas, hoje estamos até chiques, porque o carro pelo menos tinha ar-condicionado, em vez daquele ar violento que vai entrando em carro de capota! Nesta viagem o carro quebrou umas cinco vezes na estrada e meu irmão, com um ano de idade na época, tomou banho em um puteiro… Sim, viagem peculiar a nossa!

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Igreja do Rosário. Imagem: Jeguiando.

Mas… Continuando a falar da experiência da viagem em si, foi estranho chegar em Floresta e ver em cada prédio público o sobrenome que eu carrego ou sobrenomes ligados à nossa família também. Entre Calaça, Sá, Novaes, caminhei pelo chão daquela cidade, tentando imaginar como tudo aquilo era no tempo que meu pai foi menino. Painho (sim, eu chamo meu pai de painho) vivia em uma fazenda relativamente próxima à cidade e imagino que o ponto alto de sua existência era o dia que ele dava umas voltas na cidade. Achei bonito ver os olhos dele brilhando de orgulho da cidade. “Tá bonitinha né, filha?”. E eu dizia… “É pai, tá bonitinha sim”… Para quem cresceu em Salvador e hoje mora em São Paulo, passar poucos dias em uma cidade do interior de Pernambuco pode parecer um desafio, mas há uma beleza presente na simplicidade daquela vida desacelerada que toca… Toca sim.

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Catedral do Bom Jesus dos Aflitos. Imagem: Jeguiando.

Foram poucos dias os que passei em Floresta, mas o que pude perceber, além do nome da minha família espalhado em alguns cantos, é que há um orgulho grande dos habitantes em relação à cidade. Não sei se isso me assusta ou me encanta, mas há carinho na fala dos habitantes daquela cidade. Agora entendo a razão pela qual meu pai se emociona quando fala de Floresta, do Rio Pajeú, do Riacho do Navio, do Rio São Francisco e de tudo que a envolve. Há viagens de todos os tipos… Trabalho, turismo… Esta foi de retorno às minhas raízes, aquelas mais profundas, escondidas em camadas que antecedem minha origem. Enfim, valeu a pena.

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Catedral do Bom Jesus dos Aflitos. Imagem: Jeguiando.

Falando um pouco sobre a origem de Floresta, a cidade “teve início no século XVIII nas fazendas Curralinho e Paus Pretos, mas foi na Fazenda Grande, à margem direita do rio Pajeú, que teve início a povoação de Floresta. Na segunda metade do século XVIII, a fazenda servia de curral temporário para o gado que vinha da Bahia abastecer os engenhos de açúcar pernambucanos. (…) A proximidade com os Rios Pajeú, São Francisco e o Riacho do Navio aliada ao espírito de cristandade atraíram o povo para o local. Em poucos anos, o povoado de Fazenda Grande foi elevado à categoria de Vila em 31 de março de 1846, por meio de projeto que se tornou Lei Provincial n° 153, apresentado pelo representante de Flores, município também banhado pelo Rio Pajeú, do qual foi desmembrado”. Quer ler um pouco mais sobre sua história, acesse o Portal Floresta Net.

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Praça Major João Novaes. Imagem: Jeguiando.

As atrações turísticas de Floresta são basicamente seus casarões coloniais, que datam do século XIX, a Igreja de Nossa Senhora do Rosário, o Riacho do Navio, a Serra Negra e a Trilha Lagoa do Pedrosa.

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Casarão colonial. Imagem: Jeguiando.

Como se trata de uma cidade relativamente pequena, as opções de bares não são grandes, mas há um barzinho por lá, o Bar do Betinho, que é o ponto de encontro dos habitantes de Floresta e a opção para os turistas. O bar existe há mais de 20 anos e é onde você poderá tomar uma cerveja ou comer alguma coisa de bode! Sim, o que não falta na mesa de algumas cidades do sertão Pernambucano é o bode. Cuzcuz e carne de bode frita é prato obrigatório! Um queijinho coalho, requeijão do bom e doce de leite também fazem parte do cotidiano da cidade.

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Jegueton em Floresta do Navio. Imagem: Jeguiando.

Floresta também é conhecida como a cidade dos tamarindos. Não é à toa que a imagem que abre o post é de um pé de tamarindo. Um dos muitos que podem ser encontrados ao longo da Praça João Novaes.

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Os Calaças de Floresta. Primaiada querida. Imagem: Jeguiando.

Bom, meus caros jeguiantes, espero que tenham gostado do post. Apesar de Floresta não ser uma cidade turística, ainda assim, pela sua proximidade com o Rio São Francisco, pode ser que um dia você passe por lá, tome uma água de coco no bar do Betinho, coma uma fritada de bode e ouça dos habitantes alguma história curiosa das famílias que ali viveram e das que ainda vivem por lá. Boa viagem!

E para quem gosta de viajar de uma forma diferente, além de imagens, trago outras linhas. ;)

Floresta do Navio

(Janaína Calaça)

Ali estão minhas raízes,
capilares levando vida às minhas lembranças turvas.
Cheguei com fome de história,
com sede de memórias
e encontro o chão seco e rachado,
fragmentado-profundo-revelado.
Tudo era solidão viva.

*

Por trás das árvores retorcidas,
do verde pálido pontuado do dourado da seca,
debaixo de um céu profundamente azul,
a velha casa ainda vive,
com seus olhos tristes de janelas antigas,
chão de cimento batido
e velhos potes de água.

*

Velha Floresta,
do Xique-Xique, Mandacaru e do Facheiro,
do Quipá, Algarobas e Macambiras de boi e anzol,
dos riachos salgados e intermitentes,
dos Caborés aninhados nos cupinzeiros.
Velha Floresta,
mãe de seio murcho e de ventre desértico.

*

Sentei ali, na cadeira de pernas bambas,
a ver o vento varrer tudo para longe,
da poeira às lembranças,
das folhas às nossas vozes.
O gado pouco e murcho,
a sonhar com um mar de água doce,
caminha lentamente fazendo o chocalho cantar,
e eu, figura destoante,
vertendo rios por dentro,
acaricio o cão dócil,
que de tanto nadar na terra seca,
já ganhou a cor de sua poeira.

*

Vejo a silhueta dos meus ao longe,
enquanto caminho pela terra,
tentando me enraizar novamente,
desviando-me dos espinhos reais e dos imaginários.
Eles riem.
Muito tempo sem sentir a proximidade do sangue.
O velho tio solve seu café,
meu velho pai revive o tempo das calças curtas,
meu irmão adormece na rede vermelha.

*

E eu a pensar no momento que todos se vão,
que as janelas e portas são serradas novamente,
deixando a velha casa para trás,
que segue com sua condição de guardiã da memória de todos,
como a mãe que guarda o som do choro de seus filhos.
O que acontece quando todos se vão,
a poeira sobe
e as árvores retorcidas ficam para trás?

*

É isso que trago em mim,
a Floresta do Navio acenando verde e dourada,
contando-me velhas histórias,
cravejadas no chão e na velha casa.
Ôoooo… êeee…
Sigo aboiando as memórias dos meus,
volto pra casa com os olhos rasos,
o São Francisco todo correndo em mim.

Fontes de pesquisa:

Portal Floresta Net.

Wikipedia.

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